Alimentação não é assunto de dona de casa, mas da casa

Há pouco mais de 20 anos, quando contei em casa que iria fazer um curso de formação de chef, minha mãe, que é professora universitária, quase caiu para trás: “A gente levou tanto tempo para se livrar da cozinha, por que uma moça vai querer aprender a cozinhar?”

 

Para muitas mulheres da geração dela, cozinhar era quase um símbolo de submissão. E, enquanto elas lutavam pela igualdade de direitos, surgia uma nova ideia em relação à alimentação: cozinhar não era necessário, a indústria alimentícia faria isso por você. Pronto, juntou a fome com a vontade de comer.

 

Desde a década de 1980, os brasileiros estão cozinhando menos. Cada vez menos. E os índices de obesidade estão subindo. Parece contraditório, mas tem explicação científica: quem não cozinha se alimenta pior. Já é uma questão de saúde pública, com mais de 50% da população com sobrepeso. E as estatísticas mostram que, se nada for feito, a tendência é piorar, especialmente entre mulheres e crianças.

 

Para reverter o quadro, a solução não está nas dietas mirabolantes, nos superalimentos, nas proibições de grupos alimentares. A recomendação é simples: voltar para a cozinha. Até a Organização Mundial da Saúde (OMS) endossa a ideia*.

 

Cozinhar é o jeito mais eficiente de manter uma alimentação saudável de verdade. Prova disso é que nos países com menores índices de obesidade as pessoas cozinham mais, e as refeições seguem padrões alimentares tradicionais.

 

Voltar a cozinhar não significa voltar no tempo

Não podemos, nem devemos, nem queremos voltar no tempo das nossas avós, quando a mulher não tinha escolha, a não ser cuidar dos afazeres domésticos. E, por mais que cozinhar hoje seja muito mais prático, dá trabalho. Claro que a gente não precisa mais depenar a galinha para preparar a canja. Mas se a pessoa não tem habilidades culinárias, não sabe cozinhar, não tem a prática de chegar em casa e preparar o jantar num piscar de olhos, é como se tivesse que depenar a galinha a cada vez que encosta a barriga no fogão. Especialmente se tiver que fazer tudo sozinha.

 

Para que a comida esteja quentinha na mesa posta, alguém tem que pensar no cardápio, fazer a lista de compras, ir às compras, guardar as compras, preparar os alimentos, lavar os utensílios da preparação, arrumar a mesa, tirar a mesa, lavar a louça e, nesse meio tempo, manter a geladeira e a despensa em ordem. Em uma casa com mais de uma pessoa, não faz sentido que todas essas tarefas recaiam sobre apenas um morador.

 

Alimentação é assunto da casa, e não de dona da casa. A divisão de tarefas é, inclusive, um princípio, não só de alimentação saudável, mas de convivência saudável. Busco inspiração nas mulheres da minha família para traçar uma estratégia. Da minha avó Maria Rita, que teve dez filhos, vinte e tantos netos, e conseguiu manter próxima uma família tão grande, resgataria o afeto e a doçura para fazer o convite, para levar todo mundo para a cozinha. Da minha mãe, que educou a mim e aos meus irmão exatamente da mesma forma, emprestaria a clareza para explicar o conceito de divisão de tarefas e a firmeza ao defender que a casa siga esse princípio.

 

Precisamos cozinhar juntos. É a única forma de mantermos uma alimentação saudável de verdade. E quem não sabe pode aprender em família. Esse aprendizado deve se transformar em compromisso: está nas nossas mãos recriar o hábito de cozinhar, para que nossas filhas e filhos vejam esse ato como fundamental, natural, diário, e – acima de tudo – prazeroso.

 

* Desde o ano passado, em conjunto com a FAO, o órgão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a OMS vem liderando as iniciativas da “Década de Ação pela Nutrição”, implementada pela ONU para o período de 2016 a 2025. E uma ação fundamental é a educação culinária, com estímulo para o preparo de alimentos em casa.

 

Foto: Editora Panelinha / por Gilberto Oliveira Jr.