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Uma reflexão para o Dia das Crianças

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Com o Dia das Crianças chegando, quero propor uma reflexão — e, claro, tem a ver com comida. Quando leio por aí as sugestões do que preparar para as crianças, vejo o reflexo de uma grande confusão sobre o que é saudável e também sobre essa ideia de "comida de criança". 

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE NA MINHA NEWSLETTER (9/10). ASSINE AQUI 

Escolhi dois exemplos: de um lado, está o 'danoninho de inhame'. Do outro, o 'pavê de oreo'. Eles parecem muito distantes um do outro, mas são dois lados da mesma moeda. Ambos estão contaminados pela lógica dos ultraprocessados. 

Você pode estar pensando: ué, qual o problema do danoninho caseiro se no Panelinha tem requeijão caseiro, creme de chocolate com avelã caseiro, ketchup caseiro, maionese caseira… qual a diferença?

Boa pergunta. A diferença é que, nesses exemplos do Panelinha, são receitas de verdade, de preparações que existiam antes de virarem ultraprocessados. As receitas caseiras apenas tiram os aditivos químicos da história. Já o 'danoninho caseiro de inhame' imita um ultraprocessado, valoriza um produto, em vez do alimento em si. E mais: segue uma lógica de substituição (não é feito de leite fermentado e morango e sim de inhame cozido com morango), que traz para mesa uma outra discussão importante, a da medicalização da comida. Ou seja, escolher os alimentos a partir dos nutrientes. Qual o problema? Além de precisar ser PhD em nutrição para conseguir deixar a dieta equilibrada, você abre mão de vários aspectos da comida de verdade. 

 

Para fazer boas escolhas para os nossos filhos, é preciso refletir. E se a receita tem no nome uma marca comercial, fique alerta.
 

O conceito de comida de verdade vai além dos nutrientes. Tem a ver com a forma de comer, de combinar os alimentos no prato, com os nossos costumes e tradições, com a nossa cultura, entre tantas outras coisas. Os ultraprocessados estragam tudo isso. E desde muito cedo! Desde o leite materno. (Mais uma discussão bastante complexa, mas o objetivo aqui é fazer você refletir. Claro que a fórmula infantil é uma solução para quando o bebê não pode ser amamentado, mas é importante lembrar que, nas décadas passadas, foram necessárias inúmeras campanhas incentivando o aleitamento materno, que, em função do marketing das fórmulas infantis, estava sendo abandonado.)

 

Para a indústria de ultraprocessados, seus filhos são apenas consumidores  – e consumidores cobiçados. E quanto antes eles estiverem em contato com marcas, melhor para essa indústria.
 

Comida de bebê não é papinha!

 

Desde o projeto Comida de Bebê (livro, websérie e página no site Panelinha), desenvolvido com a consultoria nutricional do Nupens/USP, ficou muito claro para mim como a ideia de ‘comida de criança’ é uma baita porta de entrada para os ultraprocessados, desde a papinha, passando pelos nuggets, até o 'pavê de oreo' — mesmo que ele seja feito em casa.

Alimentação é um assunto muito complexo, especialmente diante do sistema alimentar atual, que privilegia os ultraprocessados, em detrimento da comida de verdade. As pessoas nem se dão conta de que, ao propor um 'danoninho de inhame', na realidade, estão alimentando uma lógica que tira a comida de verdade da mesa. 

A ideia da substituição é contrária ao conceito de comida de verdade, porque ela cria alimentos vilões e até nutrientes vilões. Primeiro era o pão, depois o carboidrato, de repente, o glúten! E, não por acaso, para cada ‘vilão’, surgem no mercado centenas de produtos para substituí-lo. Em 2017, no auge do modismo de cortar o glúten, mesmo sem indicação médica, o mercado de produtos sem glúten cresceu 200%. Claro que, no caso de crianças com necessidades especiais de alimentação, a história é outra e, realmente, há uma série de adaptações que precisam ser feitas.

Numa casa em que a alimentação seja baseada em alimentos in natura, em que as crianças comam arroz, feijão, legumes, verduras, frutas, não precisa fazer 'danoninho de inhame'. E também não sentido salpicar o pavê com biscoito ultraprocessado!

Garantir comida de verdade na mesa não é uma tarefa simples. Longe disso. Ainda mais, agora, com as crianças há seis meses comendo todas as refeições em casa. Talvez por isso mesmo, faça tanto sentido comemorar o Dia das Crianças com bolo e brigadeiro, feitos em casa e com chocolate de verdade. Ou qualquer outra comida que os seus filhos adorem comer.

 

No especial de Dia das Crianças você encontra ideias do que preparar com elas no próximo dia 12. E, no dia a dia, comida de criança é comida de verdade, exatamente como a dos adultos. Com muito arroz, feijão, carnes, hortaliças e frutas, e sem refrigerantes e todos os outros ultraprocessados.