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Saber cozinhar é mais que mexer colher na panela

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Quando alguém me conta que não tem “tempo para cozinhar”, sabe o que eu escuto? Que a pessoa está dizendo que não sabe cozinhar. “Imagina, faço um risoto maravilhoso, todos os meus amigos elogiam…”, pode resmungar em pensamento o leitor do outro lado da tela. Não precisa, não estou duvidando de que os cozinheiros de fim de semana tenham suas especialidades na manga. Não é nada disso. Mas pode haver aí uma divergência: estou me referindo a cozinhar como ferramenta para uma alimentação saudável, e isso pressupõe uma atividade cotidiana. É para isso que as pessoas não estão mais encontrando tempo.

É verdade que a vida está muito corrida. De todos nós. É verdade também que, nas últimas décadas, a grande indústria alimentícia vendeu aos seus consumidores – nós – a ideia que cozinhar era uma perda de tempo desnecessária, uma vez que você pode comprar a comida pronta. O que nem todo mundo se deu conta é que esse “experimento” não deu certo. A obesidade chegou a níveis epidêmicos nos países onde as populações pararam de cozinhar. Pense nos Estados Unidos, na Inglaterra… (Já vamos falar sobre o Brasil.)

Já França, Espanha, Japão, Suécia e Israel estão entre os dez países com menores índices de obesidade. E sabe o que a alimentação deles têm em comum? É baseada em comida caseira, feita a partir de alimentos frescos, in natura, e minimamente processados. Nesses lugares, as tradições à mesa são tão fortes que mantiveram as populações na cozinha e blindaram as pessoas contra a tentação da comida comprada pronta, dos fast foods – e até das dietas malucas, sem glúten, sem lactose, etc.

A pergunta então poderia ser: como eles fazem para ter tempo de cozinhar? É uma questão de prioridades – e habilidades.

Voltemos ao meu filtro auditivo, que decodifica a falta de tempo. Quando uma pessoa diz que não tem tempo para cozinhar, ela não está falando que não consegue encaixar na rotina o preparo de um risotinho no fim de semana. Ela está revelando que não tem tempo para: pensar no cardápio semanal, fazer a lista de compras, ir ao mercado, voltar com a compra e armazenar os alimentos na cozinha... Saber cortar e misturar os alimentos na panela é apenas um pequeno aspecto de cozinhar. E é muita coisa, mesmo. Mas, com o tempo, isso tudo entra no piloto automático, e dá a impressão que o sujeito cozinha de improviso.

Pode reparar, o preparo do jantar de quem cozinha no dia a dia parece coreografado. A pessoa chega em casa do trabalho, entra na cozinha, lava as mãos, coloca na panela sobre o fogão, saca da gaveta da geladeira uma carne, tira um saquinho de legumes do congelador, pica fininho uma cebola, refoga e junta o arroz... E num piscar de olhos, coisa de vinte minutos, tem uma refeição esperta na mesa.

No episódio inédito do Cozinha Prática Verão desta semana você vai ver como resolver uma dessas etapas da coreografia: preparar seletas de legumes caseiras, que vão do congelador para a panela sem um pingo de aditivo químico.

De volta para o futuro
Nas minhas palestras, sempre conto que aprendi a cozinhar com vinte e poucos anos, quando resolvi fazer um curso de formação de chef. Minha mãe, que é professora universitária, quase caiu para trás quando anunciei a minha decisão: “A gente levou tanto tempo para se livrar da cozinha, por que uma moça vai querer aprender a cozinhar?”

Entendo e admiro as mulheres da geração da minha mãe. Muitas delas abriram mão de cozinhar para conquistar o mercado de trabalho e, com a independência financeira, alguma liberdade intelectual. No entanto, hoje está claro que cozinhar não é um assunto de dona de casa, mas sim da casa. Da saúde. Dos homens e das mulheres.

A importância da divisão de tarefas é tratada na aula 6 do curso Comida de Verdade, disponível no canal Panelinha no Youtube.

Uma pessoa sozinha, com planejamento e alguma habilidade culinária, é capaz de cuidar da própria alimentação. Mas uma pessoa sozinha não dá conta de cuidar da alimentação da família inteira – e ainda trabalhar fora. Sem uma divisão de tarefas estruturada, fica muito difícil a família manter uma alimentação saudável de verdade, baseada em comida caseira (feita em casa, e não na fábrica, mesmo que no rótulo esteja escrito ‘caseiro’, que fique claro). Os homens precisam aprender a dividir as tarefas domésticas com as mulheres. (Os casais homossexuais masculinos fazem isso de forma natural; os héteros é que precisam urgentemente aprender a participar.)

Quem faz as compras não precisa ser responsável pelo preparo do jantar. E quem faz a comida pode ser dispensado de colocar a mesa e de lavar a louça. Tudo isso precisa ser combinado e, em muitos casos, ensinado. E é para já. Não dá mais para esperar.

No Brasil, em meados da década de 1990, o consumo de óleo e açúcar começou a diminuir e, curiosamente, os índices de obesidade começaram a subir. Depois de muita pesquisa, a correlação ficou clara: óleo e açúcar são dois ingredientes usados na cozinha; à medida que a população foi parando de cozinhar, as pessoas foram engordando. E não pararam mais.

Hoje, o excesso de peso já atinge mais da metade da população adulta do país. E os índices de obesidade se mostram ainda mais alarmantes em relação às mulheres e crianças, segundo um documento recém-lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela FAO, órgão da ONU para Alimentação e Agricultura, o ‘Panorama de Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e Caribe'.

Se para a geração da minha mãe cozinhar era um símbolo de submissão, hoje, não saber cozinhar é uma alienação. Se, para os homens, cozinhar podia se limitar a um prazer de fim de semana, agora precisa fazer parte da rotina. Não dá mais tempo de “não ter tempo para cozinhar”. Saber cozinhar é muito mais do que saber mexer a comida na panela: é uma ferramenta para uma vida mais saudável.


O Cozinha Prática Verão vai ao ar na quinta-feira às 21h15, com reapresentações às sextas (17h15); sábados (10h45 e 21h45); domingos (6h45 e 14h30) e terças (4h30).

 

Foto: Editora Panelinha

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