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A cereja do drinque

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Sujeito que é muito preconceituoso não pode trabalhar com comida. A mente tem que estar aberta para poder identificar coisas novas, criar, juntar um sabor com outro e descobrir uma combinação inusitada. E, por mais que eu adore comer os mesmos pratos nos mesmos restaurantes, meu trabalho simplesmente não permite deixar de lado ingredientes diferentes, técnicas culinárias inovadoras — ou até rever coisas do tempo do onça com um olhar curioso.

Há umas semanas, o Antonio surgiu com uma piña colada no Panelinha no rádio. Piña colada? Diga a verdade: você já experimentou? Eu gosto de drinques com sotaque italiano, inglês, mas tenho minhas restrições a coisas que remetam a praias caribenhas, verão de biquíni, foto de pôr do sol — isso porque gente preconceituosa não pode trabalhar com comida. Mas o lado retrô da preparação é divertido. E coquetelaria tem essa aura old glam deliciosa, que tanto pode ser elegantíssima... ou puro deboche.

Pois bem, drinque feito, tragado e algo começa a brilhar no céu da boca. Desde o meu aniversário de 10 anos, quando floresta negra era o bolo da moda, não comia uma cereja. Por quê? Esquecimento? Desconhecimento? Preconceito?

Não saberia responder. Cereja ao maraschino simplesmente nunca passou pelo meu radar. Talvez por isso a descoberta dessas doces bolinhas vermelhas, lustrosas e etílicas, tenha sido tão surpreendente. Acabei com o primeiro vidro. Comprei mais um, só para ter por perto. Veio o ano novo judaico, fiz o bolo de mel, polvilhei açúcar de confeiteiro e... decorei com cereja!

Fiquei com vontade, porém, de tentar algum uso menos óbvio. Antes de entrar na cozinha, resolvi dar uma espiadinha no que andam fazendo com cerejas por aí. Meu bem, como elas são controversas! Um reclama do corante, outro, do acidulante. Tem um que jura de pé junto que cereja ao maraschino não existe mais, só o que se encontra no mercado é chuchu tingido. Fiquei até com medo — fiquei nada. E, lógico, tem uma penca de blogs que propõem aos comedores de cereja de bolo que produzam em casa suas próprias conservas.

Bom, vou dizer a verdade: por ora, não vou fazer nada disso. E continuo encantada com as cerejas que estão na geladeira de casa. Para mim, elas não se parecem em nada com chuchu — têm caroço e cabo. Ou eu sou muito boba e não sei diferenciar o legume da fruta. Mas uma coisa eu garanto, dando beijinho nos dedos cruzados: prometo não aparecer aqui com espetinho de provolone e cereja. Porque aí não se trata de uma questão de preconceito. Seria uma total falta de ética profissional induzir o leitor a tamanha gafe culinária.

Foto: Charles Naseh

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