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Reportagem do The Guardian sobre consumo de ultraprocessados é baseada em pesquisa do NUPENS

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A manchete da última sexta-feira (dia 2) do jornal inglês The Guardian, um dos mais prestigiados do mundo, foi sobre o consumo alarmante de ultraprocessados no Reino Unido. “Metade de toda a comida comprada por famílias no Reino Unido é ultraprocessada, produzida em uma fábrica a partir de compostos industriais e aditivos inventados por engenheiros de alimentos e que guardam pouca relação com frutas, vegetais, carnes ou peixes usados para preparar refeições em casa.”

A reportagem é baseada em pesquisa internacional elaborada por uma equipe de cientistas liderada pelo professor Carlos Monteiro, coordenador do Nupens, o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, entidade parceira do Panelinha. A pesquisa que ampara a reportagem revela a escala da evolução da dieta em 19 países europeus e foi publicada em uma edição especial da publicação Public Health Nutrition.

No Reino Unido,  50,7% da dieta é formada por esses produtos. Alimentos in natura e minimamente processados representam 28,6%, ingredientes culinários, 10,4%, alimentos processados, 10,2%. O que coloca o país no topo da lista dos que mais consomem ultraprocessados na Europa, em segundo e terceiro lugar a vêm Alemanha (46,2%) e Irlanda (45,9%). Os dados foram extraídos de diferentes pesquisas de consumo, realizadas com diferentes metodologias e em diferentes datas. Mas ainda assim apontam para uma tendência clara.

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Para Monteiro, é um dado alarmante e que indica uma clara piora na qualidade da alimentação. “Se você come macarrão instantâneo que é essencialmente baseado em óleos, amido e aditivos, você não está comendo macarrão de verdade. O mesmo vale para nugget de frango – quando você come nuggets de frango ultraprocessado você não está comendo frango de verdade”, disse Monteiro ao jornal. “E aí você tem o sal, o amido, o açúcar, a gordura e todos esses aditivos. Estamos consumindo, todos os dias, uma quantidade de novas substâncias, que são esses saborizantes, corantes e emulsificantes sem ter a menor ideia se elas poderão causar problemas para a saúde”.

Ele explica que as regulações sobre esses aditivos são quase todas da metade do século passado e focadas em se eles causam câncer ou não. Outros efeitos cumulativos de ingerir esses produtos não são ainda conhecidos. “A resposta honesta é que nós não sabemos o que está acontecendo.”

Jean-Claude Moubarac, professor de nutrição da Universidade de Montreal no Canadá, que trabalha com Monteiro, também falou ao jornal inglês. “Os ultraprocessados têm baixa qualidade nutricional. É muito açúcar, sal e gordura saturada. E níveis baixos de proteínas, minerais e vitaminas”.

Para a professora Corinna Hawkes, diretora de polícia nutricional da City University London, também ouvida pela reportagem, é urgente uma mudança nos hábitos alimentares, na cultura, e na maneira como as crianças aprendem a gostar do gosto da comida de verdade, incluindo o amargor. “É responsabilidade nossa, como sociedade, que as crianças aprendam a gostar de ter uma alimentação saudável. Todas as grávidas, todos os  cuidadores, todos os avós envolvidos na alimentação da criança têm que ter acesso a uma boa educação sobre esse tema.”

E no Brasil?

O Reino Unido, um dos países que mais sofre com a epidemia de obesidade no mundo, não tem um padrão alimentar tradicional como o Brasil.  O fato de o Brasil ter uma cultura alimentar própria, baseada em uma dieta balanceada, simbolizada pelo arroz e feijão, é uma vantagem que pode ser usada pela população brasileira para proteger a alimentação e a saúde. Ainda assim é preocupante: mais da metade da população brasileira sofre com sobrepeso e a obesidade aumentou 60% nos últimos dez anos.

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Manter o padrão alimentar brasileiro, baseado no pê-efe,  com arroz, feijão, verdura e carne, sentado à mesa e de preferência na companhia da família ou de amigos, é a maneira mais eficaz de manter uma alimentação saudável.

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