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Sopa de lentilha para fazer as pazes

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Machistas ficam muito confusos com pessoas como eu. À primeira vista, eles me amam. Que mulher linda, e ainda por cima sabe cozinhar! Eles me consideram um exemplo para as suas esposas. Dentro dessa visão de mundo, é sagrado que a cozinha seja reservada às donas de casa. Logo, o que mais eu poderia ser, além de uma rainha do lar que encontrou um passatempo na televisão?

 

Já uma feminista, para eles, é uma mulher feia, raivosa, mal-comida, que odeia homens, não depila debaixo do braço e virou sapatão. É simplesmente impossível que uma mulher loira, alta, magra e de olhos azuis, maquiada e penteada, que ensina receitas com voz calma numa cozinha dos sonhos possa se importar com os direitos de outras mulheres ou, ainda, querer uma sociedade mais equilibrada. 

 

Quem acompanha o meu trabalho de perto já cansou de me ouvir dizer que alimentação não é assunto de dona de casa, mas da casa. Já viu também as estratégias para estruturar a divisão de tarefas no curso Comida de Verdade. Já sabe de cor e salteado que alimentação saudável só é possível quando a responsabilidade é do casal – não tem essa de ‘ajudinha’. Mas entendo que seja um choque, para os machistas que assistem o programa por tabela, de canto de olho, perceber que a minha cozinha é feminista.

 

Panelinha + USP: Conheça o curso Comida de Verdade

Leia também: Alimentação não é assunto de dona de casa, mas da casa

Saiba Mais: Tudo sobre receitas com memórias

 

Quando descobrem que, em vez da dona de casa que imaginavam, sou dona de uma empresa de produção de conteúdo importante no segmento, e não passo o dia inteiro na cozinha, ficam doidos! Entram no Twitter e me chamam de ‘Rita Bobo’, dizem que ‘o encanto some quando ‘dá aquela “esquerdada” feminista’, que fico ‘pagando de defender as manas’, que só tenho sucesso porque sou casada com um ‘homem rico influente nas mídias’... ‘Menos, Rita’, imploram. Usam todas as estratégias machistas para tentar me diminuir e desvalorizar o meu trabalho. Tentam até a mais velha das artimanhas: colocar mulheres contra mulheres. Em vão. Homens e mulheres que vivenciam a cozinha feminista incentivam e valorizam ainda mais conversa. 

Sinto informar: a igualdade de gêneros chegou à cozinha

E o que isso tudo tem a ver com o episódio do Cozinha Prática desta semana? Ah, os meus seguidores machistas vão ficar passados quando me virem fazendo declarações de amor, contando que meu marido e eu cozinhamos juntos... Vai ser muito confuso para eles! Mais do que isso, o episódio da semana vai ser um baque: uma feminista na cozinha que além de linda, magra e loira é casada com um homem que ela ama. Terrível!

 

Mas, calma, pode haver salvação. A sopa que ensino no episódio ficou registrada na minha memória como sopa para fazer as pazes – essa história deixo para contar no programa. Quem sabe, inspirados pelos sabores da sopa de lentilha com limão e cominho, os nossos machistas de plantão também não possam fazer as pazes com o próprio tempo? Porque não há como voltar: a igualdade de gêneros só avança. Pode não andar no ritmo que gostaríamos, mas andou muito, seja do ponto de vista econômico, legal, cultural.  

 

Do ponto de vista da saúde, a divisão das tarefas domésticas é determinante. Os índices de obesidade sobem à medida que as populações se afastam da cozinha e passam a consumir produtos ultraprocessados – a comida comprada pronta. É humanamente impossível que uma pessoa sozinha dê conta de todas as tarefas necessárias para garantir comida fresca e variada todo santo dia na mesa da família. Sem a divisão estruturada desses afazeres, a tendência é que a família consuma mais e mais comida ultraprocessada – e os índices de obesidade nas populações continuem subindo descontroladamente.

 

A cozinha, o coração do lar, é um espaço excelente para exercitarmos uma convivência mais justa, mais humana. A divisão de tarefas não é boa apenas para a saúde física das populações, mas também para a saúde emocional das famílias. Cozinhar é essencial para o ser humano. Espero que eu esteja sendo bem clara. Não quero que o pessoal fique confuso. Aqui, trabalhamos com receitas e ideias que funcionam. 

 

AS RECEITAS DO EPISÓDIO

Sopa de lentilha perfumada com limão

Bolo encharcado de laranja



O QUE VESTI NO EPISÓDIO


Camisa: Rubinella

Cinto: Mixed

Pantacour: acervo pessoal

Brincos: Pitanga

Mules: Schutz

 

Cozinha Prática com Rita Lobo vai ao ar às segundas-feiras, 20h, no canal a cabo GNT. Reapresentações: quinta (10h30 e 23h30), sexta (17h30), sábado (12h e 20h30) e domingo (16h30).

 

Fotos: Editora Panelinha / por Ricardo Toscani

Figurino: Fernanda Kenan. Beleza: Paula Vida.

O Cozinha Prática é uma produção do Estúdio Panelinha.