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Comer comida de verdade virou resistência

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Acabaram de sair as primeiras informações da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), levantamento superdetalhado feito pelo IBGE sobre os hábitos de consumo da população brasileira. E os dados da POF mostram que a população está comprando menos arroz e feijão e mais comida pronta. 

A pesquisa é realizada desde os anos 1970 e foi um instrumento importante nas pesquisas do professor Carlos Monteiro, à frente do Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP).

Obesidade e ultraprocessados

Em 1995, a equipe liderada pelo professor notou que a desnutrição vinha perdendo para a obesidade o posto de principal doença nutricional no Brasil. Estudando os dados da POF na época, os pesquisadores notaram que a população estava comprando menos açúcar refinado, óleo e sal – três ingredientes associados à obesidade. Mas a quantidade de sal, do açúcar e da gordura não diminuía na composição nutricional da dieta da população – pelo contrário, aumentava.

A aparente contradição chamou a atenção dos pesquisadores, que constataram também a queda na compra de arroz, feijão, hortaliças e leite. E, ao mesmo tempo, havia aumento no consumo de alimentos prontos, refrigerantes, comida feita na fábrica. 

O grupo continuou estudando e conseguiu, enfim, verificar que a presença desses produtos alimentícios industriais estava associada ao aumento da  obesidade. Era preciso dar nomes aos bois. Então os cientistas criaram a classificação NOVA, que separa os alimentos por grau de processamento, e cunharam o termo ultraprocessado.

Conheça a classificação dos alimentos

Leia o perfil o professor Monteiro

 

Comida de verdade

Em 2014, foi lançado o Guia Alimentar para a População Brasileira, organizado pelo professor Monteiro, um documento oficial que virou referência no mundo inteiro. Ele traz orientações acessíveis para que toda a população entenda por que é importante basear a alimentação em comida de verdade.

Dois anos depois, juntamos forças: Panelinha e Nupens formaram uma parceria que reúne o conhecimento teórico do grupo de pesquisadores e cientistas com a nossa experiência prática de 20 anos ensinando as pessoas a cozinhar. 

O Que Tem na Geladeira?, Curso Comida de Verdade e coleção Já pra Cozinha são três exemplos do trabalho que estamos desenvolvendo juntos: soluções práticas com embasamento científico para ajudar você a conseguir basear a alimentação em comida de verdade e transformar isso em rotina.

 E isso é urgente: os dados mais recentes da POF, coletados entre 2017 e 2018, em aproximadamente 58 mil lares espalhados por todas as regiões do país, mostram que a comida de verdade continua perdendo espaço na mesa da população brasileira.

O gasto com arroz e feijão caiu de 10,4% (em 2003) para 5% hoje. Os gastos com farinhas, féculas e massas também diminuíram (de 5,7% para 3,6%). Caíram ainda despesas com itens como óleos e gorduras (de 3,4% para 1,7%) e leite e derivados (de 11,9% para 10,6%). Enquanto isso, o gasto com comida pronta, que era de 2,3% em 2003, foi para 3,4%. E a despesa com bebidas adoçadas (refrigerante, suco, chás) aumentou de 8,5% para 10,6%. 

Está claro que temos bastante trabalho pela frente. Se você é freguês aqui do Panelinha, imagino que na sua casa a dupla arroz e feijão faça parte do dia a dia. Também aposto que achar uma garrafa de refri na sua geladeira vai ser cada vez mais difícil. Mas a gente precisa avançar: espalhe este link, assista ao Curso Comida de Verdade e leve seus filhos para a cozinha com você quando for preparar as refeições.  

Comer comida de verdade virou um ato de resistência. E você pode fazer sua parte, não só protegendo a sua saúde ao cozinhar refeições caseiras baseadas em comida de verdade, mas ajudando outras pessoas a entender esse sistema alimentar que privilegia os ultraprocessados.